As pessoas se ouvem demais, se respeitam, se aceitam, se entendem demais. Ficamos tão preocupados em amar, tolerar, negociar, acertar, que nos esquecemos de apenas nos relacionarmos diretamente.
“Por favor”, “licença”, “obrigado”, “desculpe-me” são gestos essenciais de educação, mas não podemos nos restringir a eles se quisermos nos tocar de verdade. Ironicamente, talvez seja essa atitude polida a causa de boa parte da violência. Como nunca nos confrontamos de modo saudável, quando enfim nos encostamos, agredimos e machucamos.
Em discordâncias queremos chegar logo em “concordo”, a palavra que mais mata diálogos. Para reduzir diferenças, desperdiçamos riquezas em vez de descobrir como visões quase opostas podem seguir juntas. Ao evitar tensões, matamos a melhor fonte de movimento, de tesão.
Distância externa e interna: fugimos do contato direto com os outros para não encararmos nossa confusão. Niguém se admite racista, machista, ansioso, malvado… Viramos seres bonzinhos. Qualquer cutucão de alteridade pode abrir caminhos difíceis de transformação, então respeitamos para sermos deixados em paz.
“Eu tenho a minha opinião, você tem a sua” e “Aceite-me como sou” são posturas que podemos desrespeitar, com motivação ampla. Afinal, amar é acolher sem exigências ou desafiar o outro a desenvolver suas qualidades e ser mais feliz, aberto, sábio? Ás vezes, ser sensível e compreensivo é ser negligente, deixa o outro estagnado. O melhor modo de cuidar dos outros é não abaixar a cabeça para seus monstros, não deixar que o ciúmes, a raiva, controlem a relação.
Privacidade não educa. Crescemos mesmo quando temos nosso mundo invadido e expandido. Com tanto respeito, estamos perdendo a qualidade mais impetuosa e destemida do encontro, que nos faz diminuir a distância, arriscar, esbarrar, brincar, adentrar, avançar sobre os outros. Sem pedir licença. As mulheres, principalmente, reclamam muito dessa ausência nos homens.
Se não respeitamos quando as pessoas chegam com suas coerências e certezas, podemos ganhar seu respeito verdadeiro: “De todos, ele foi o único que não comprou minha confusão, não me deixou enganá-lo, não deixou que eu me enganasse… Ele me viu”.
Queremos mesmo é ter nossa rotina interrompida. Queremos ser desencaminhados, catapultados. Lembro-me de Manoel de Barros: “As coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis. Elas desejam ser olhadas de azul.” As coisas e a gente, Manoel. As coisas e a gente.
Gustavo Gitti



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